Estado recebe 8,2 mil unidades em três anos e fortalece produção rural
A retomada do Programa Cisternas recolocou a Paraíba no centro da política nacional de combate aos efeitos da seca. Em três anos, o estado recebeu 8.270 unidades de captação e armazenamento de água, numa curva de crescimento que já é vista por especialistas como um divisor de águas para as comunidades rurais mais vulneráveis.
Os números mostram a mudança de escala. Após a conclusão de 615 unidades em 2022, a Paraíba saltou para 3.500 cisternas entregues em 2025, um aumento de 469%. No acumulado da atual gestão federal, foram instaladas 570 cisternas em 2023, 4.200 em 2024 e 3.500 em 2025, em um movimento contínuo de retomada da infraestrutura hídrica no campo.
Essas estruturas, construídas principalmente com placas de cimento e tecnologia de baixo custo, funcionam como reservatórios domésticos e produtivos. Elas garantem água para o consumo das famílias, abastecem escolas e reforçam a base hídrica para lavouras e criação de animais em municípios marcados por longos períodos de estiagem.
Programa volta ao centro da política pública
Criado em 2003 e retomado como prioridade federal a partir de 2023, o Programa Cisternas encerrou 2025 com 104,3 mil unidades entregues em todo o país desde o início do atual mandato presidencial. O salto também é expressivo na comparação nacional: em 2022 foram 6,7 mil cisternas instaladas; em 2025, o número chegou a 48,9 mil, uma alta de 630%.
A maior parte das estruturas está concentrada no Nordeste. Dos sistemas finalizados na gestão atual, 88,6% foram instalados na região, reforçando o foco no semiárido — zona mais castigada pela irregularidade de chuvas. A Paraíba integra esse esforço como um dos estados em que a política voltou a ganhar escala e visibilidade.
No sertão do Cariri paraibano, por exemplo, 130 cisternas foram entregues entre 2024 e 2025 apenas no município de Boqueirão, que tem cerca de 18 mil habitantes. Ali, a combinação do acesso à água com outros programas sociais tem modificado não apenas a rotina, mas a lógica produtiva de pequenas propriedades familiares.
Água que vira renda no campo paraibano
Na zona rural de Boqueirão, o agricultor familiar Erasmo da Silva resume o impacto do programa numa engrenagem que conecta segurança hídrica e desenvolvimento econômico. Para ele, a cisterna não é apenas um reservatório, mas a base de um projeto produtivo mais estável.
“O Programa Cisternas foi uma bênção e ajudou nos quintais produtivos, que permitem que os agricultores plantem em quantidade e com garantia de compra governamental via Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)”, avalia o produtor.
A lógica é simples, mas poderosa: a cisterna assegura água para irrigar hortas e pequenas criações; o PAA, por sua vez, compra parte dessa produção para abastecer escolas, restaurantes populares, cozinhas comunitárias e bancos de alimentos. O que era apenas subsistência se converte em renda, circulando recursos na economia local e fortalecendo a permanência das famílias no campo.
Como funciona a tecnologia das cisternas
O Programa Cisternas é baseado em tecnologias sociais — soluções técnicas simples, de baixo custo, desenhadas com participação direta das comunidades. Na prática, trata-se de um conjunto de estruturas projetadas para captar e armazenar água de forma segura, especialmente em áreas onde a rede de abastecimento é precária ou inexistente.
No semiárido, a principal tecnologia é a cisterna de placas, que recolhe a água da chuva captada dos telhados e a armazena em reservatórios fechados. Há dois grandes grupos de estruturas:
Cisternas de 16 mil litros: voltadas ao consumo humano — água para beber, cozinhar, preparar alimentos e cuidar da higiene básica.
Cisternas de 52 mil litros e outras estruturas produtivas: destinadas à produção de alimentos e à dessedentação de animais, permitindo a manutenção de lavouras, hortas e pequenos rebanhos durante os meses de estiagem.
O programa também contempla cisternas e sistemas multiuso para escolas rurais e modelos comunitários, principalmente em áreas mais isoladas. Em todos os casos, a meta é reduzir a dependência de caminhões-pipa, longas caminhadas em busca de água e o uso de fontes improvisadas, geralmente inseguras.
Critérios sociais e alcance do programa
O público atendido pelo Programa Cisternas é formado por famílias da zona rural com renda per capita de até meio salário mínimo, que estejam inscritas no Cadastro Único do governo federal. Também são beneficiados equipamentos públicos rurais, como escolas, que sofrem com desabastecimento em períodos de seca ou falhas recorrentes no fornecimento.
Na atual gestão, mais de 189 mil unidades foram contratadas pelo Novo PAC, com meta de alcançar 219 mil cisternas. O programa já chegou a 1.037 municípios em 19 estados, com cerca de R$ 1,7 bilhão em investimentos. Desde 2003, mais de 1,34 milhão de cisternas foram entregues no país, consolidando uma das maiores políticas estruturantes voltadas ao acesso à água em regiões de baixa pluviosidade.
Embora os números sejam nacionais, a Paraíba está entre os estados que ajudam a explicar o impacto dessa política. Ao ampliar de forma acelerada a rede de reservatórios rurais, o estado se insere em um mapa em que Pernambuco, Maranhão, Rio Grande do Norte, Bahia e Ceará também registram crescimento acentuado.
Semiárido como prioridade e aprendizado de convivência com a seca
A região do semiárido brasileiro é considerada prioridade de atendimento. Em vez de tratar a seca como um evento excepcional, a política parte da ideia de convivência: a estiagem é um fenômeno recorrente, e a sociedade precisa estar preparada para atravessá-la com menos sofrimento e perdas.
As cisternas, nesse contexto, são peças centrais de um arranjo que inclui outras tecnologias sociais, como sistemas de reuso de água, fossas ecológicas e arranjos agroflorestais, além de ações de formação e capacitação de famílias e pedreiros locais.
A experiência de agricultores em diferentes estados do Nordeste mostra como a água armazenada permite ampliar a escala produtiva. Em Parnarama, no Maranhão, por exemplo, a agricultora Iolanda Santos relata que, com as cisternas, deixou de plantar apenas para o consumo da família e passou a produzir também para venda, “o que gera renda”, como ela descreve. Situações semelhantes se repetem em comunidades paraibanas, onde o acesso à água tem evitado perda de safras e fortalecido o comércio local.
Participação comunitária e efeitos na saúde
Um dos pilares do programa é o conceito de tecnologia social. A construção das estruturas não é feita de forma distante das comunidades. A mão de obra é, em geral, contratada localmente, com formação técnica oferecida pelo próprio programa. As famílias também recebem capacitação para o uso e a manutenção das cisternas, desde a limpeza adequada dos reservatórios até a correta condução da água captada.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, essa abordagem participativa gera benefícios que extrapolam o acesso à água. O coordenador do programa, Vitor Santana, aponta impactos “significativos e diversos”, entre eles a redução de doenças transmitidas pela água contaminada, a queda na mortalidade infantil, o aumento e a diversificação da produção de alimentos e a dinamização da economia local.
Em pronunciamento recente, a secretária de Segurança Alimentar e Nutricional do ministério, Lilian Rahal, classificou o Programa Cisternas como uma mudança de paradigma no enfrentamento à seca. Para ela, a iniciativa mostrou “como melhorar condições de vida, cultivos, saúde, a vida das mulheres nesse bioma”, ao articular poder público e organizações da sociedade civil para chegar a áreas onde o Estado, sozinho, teria dificuldade de atuar.
Paraíba em um contexto regional em transformação
Os dados nacionais ajudam a dimensionar o lugar da Paraíba nesse cenário. Em 2025, estados como Pernambuco saltaram de 15 cisternas concluídas em 2022 para 4.400 em 2025, um crescimento de 29.200%. O Maranhão avançou de 19 para 701 unidades, e o Rio Grande do Norte, de 218 para 2.300. Na Bahia, 21.200 cisternas foram entregues desde 2023, ficando atrás apenas do Ceará, líder regional com 28.900 unidades.
Nesse contexto, os 8.270 sistemas instalados na Paraíba em três anos evidenciam uma convergência de esforços na faixa semiárida do Nordeste. O estado passa a integrar um corredor de municípios que veem a água deixar de ser um fator de expulsão e se tornar elemento de permanência e reorganização produtiva.
No sertão paraibano, as cisternas têm reduzido a necessidade de longos deslocamentos diários em busca de água, tarefa que recai historicamente sobre mulheres e crianças. Ao aproximar a fonte de água da casa e dos roçados, o programa altera a distribuição do tempo de trabalho familiar e abre espaço para novas atividades, como pequenos empreendimentos rurais, participação em associações comunitárias e escolarização mais contínua.
Desafio permanente e próximos passos
Embora os avanços sejam expressivos, especialistas em recursos hídricos alertam que o desafio permanece. A variabilidade climática, aliada a eventos extremos, tende a pressionar ainda mais regiões semiáridas. Nesse cenário, a continuidade de políticas estruturantes — como o Programa Cisternas — é vista como peça-chave para evitar ciclos de retrocesso.
Na Paraíba, a ampliação da rede de cisternas se soma a outras iniciativas de acesso à água, como adutoras, poços e sistemas simplificados de abastecimento. A combinação de soluções centralizadas e tecnologias descentralizadas, como as cisternas, é apontada como estratégia mais robusta para garantir que famílias em áreas isoladas não fiquem à margem dos serviços essenciais.
Ao final, a fotografia que emerge é a de um semiárido em transição: ainda marcado pela irregularidade de chuvas, mas cada vez mais estruturado para conviver com ela. Na Paraíba, onde 8,2 mil novas cisternas passaram a pontuar o mapa rural em três anos, o impacto vai além das estatísticas. Ele se traduz na torneira que não seca no quintal de uma casa de taipa, na horta que continua verde em pleno verão e na renda que começa a circular onde antes só havia espera pela próxima chuva. (Texto: redação Click100 / Imagem de capa: reprodução Agência Brasil | Fernando Frazão)
