Economia de aplicativos amplia desigualdades de gênero no setor de cuidados
Nesse mês de março, no contexto do dia 08 que marca o dia internacional das mulheres e, para vergonha social, o país se depara com uma crescente e terrível onda de violência de gênero, muito alicerçado e enraizado no aumento de movimentos que pregam ódio às mulheres (como o movimento “redpill”) e que encontra terreno fértil no mundo digital.
Nesse contexto de tragédia e economia digital, me deparei com a leitura de um artigo muito interessante que tratava do tema “Trabalho, emprego e renda na era da plataformização digital: o caso dos trabalhos de cuidado”, escrito pelas autoras Carolina Pellegrini e Ana Paula Costa (2022), onde as autoras tratam de uma esfera silenciosa de precarização do trabalho na era de economia digital que atinge em maior grau as mulheres.
Nesse texto as autoras apresentam uma realidade: existe uma transformação silenciosa acontecendo no mundo do trabalho. Ela não se anuncia em grandes revoluções ou rupturas dramáticas, mas em pequenas mudanças do cotidiano: o motorista que liga o aplicativo antes de sair de casa, a faxineira que aceita uma diária pelo celular, a cuidadora de idosos que aguarda uma notificação no telefone para saber se terá trabalho naquela semana.
À primeira vista, trata-se apenas de tecnologia reorganizando tarefas. Mas, olhando com mais atenção, percebemos que algo mais profundo está em curso: uma nova forma de precariedade, muitas vezes escondida sob o discurso da autonomia.
A economia digital gosta de se apresentar como a era da liberdade do trabalhador. As plataformas prometem flexibilidade, autonomia e a possibilidade de que cada pessoa seja “sua própria chefe”. Porém, quando se observa a realidade concreta dessas relações de trabalho, percebe-se que a história é um pouco mais complexa.
Como observa Arnaldo Provasi Lanzara, a expansão da economia digital reorganiza profundamente as relações laborais, mas frequentemente sem que os sistemas de proteção social acompanhem essa transformação. O resultado é um mundo do trabalho em que as responsabilidades se deslocam cada vez mais para o indivíduo, enquanto as garantias coletivas se tornam cada vez mais raras.
Esse fenômeno se torna ainda mais evidente quando olhamos para um setor específico da economia o que foi o foco do texto das autoras: o trabalho de cuidado e as plataformas digitais que atualmente também vêm se inserindo nesse setor da intermediação de serviços, temos o surgimento de plataformas para contratação de cuidadores de idosos, de faxinas e etc.
Cuidar sempre foi uma atividade essencial à existência humana. Crianças precisam ser cuidadas, idosos precisam de atenção, pessoas doentes dependem de assistência, casas precisam ser organizadas para que a vida cotidiana possa continuar.
No entanto, a história social, no que chamam de “divisão sexual do trabalho” atribuiu essa responsabilidade quase exclusivamente às mulheres.
Durante séculos, o cuidado foi tratado como uma extensão natural do corpo feminino, como se cuidar fosse menos uma atividade social e mais uma vocação biológica. A consequência dessa construção cultural foi dupla: primeiro, o trabalho de cuidado tornou-se invisível; segundo, quando passou a ser remunerado, tornou-se mal remunerado.
A divisão sexual do trabalho consolidou esse padrão. Enquanto os homens ocupavam profissões associadas ao prestígio, à técnica ou à autoridade, às mulheres foram atribuídas atividades ligadas ao cuidado, à educação e à manutenção da vida cotidiana.
Essa lógica não desapareceu com a modernidade. Ela apenas mudou de forma.
Entre os fatos sociais recentes a chamada plataformização do trabalho, isto é, a intermediação de serviços por aplicativos digitais, reproduz e, em alguns casos, aprofunda desigualdades já existentes. No caso dos trabalhos de cuidado, a presença feminina continua predominante, e as condições de remuneração e proteção social permanecem frágeis. Como demonstram Pellegrini e Costa, a expansão das plataformas digitais tende a intensificar desigualdades de gênero, classe e raça presentes nas relações de trabalho.
A promessa da flexibilidade, nesse contexto, revela seu lado ambíguo.
Para muitas mulheres, especialmente aquelas que acumulam responsabilidades domésticas e familiares, a possibilidade de organizar o próprio horário pode parecer uma vantagem. No entanto, essa flexibilidade frequentemente significa ausência de direitos trabalhistas, renda instável e transferência integral dos riscos do trabalho para a própria trabalhadora.
O aplicativo não paga férias e o algoritmo não concede licença médica. Bem como, a avaliação negativa de um cliente pode significar, na prática, a perda da única fonte de renda disponível.
Nesse cenário, a figura do chefe não desaparece, ela apenas muda de forma. O controle não é mais exercido por uma pessoa visível, mas por um sistema de avaliações, métricas e algoritmos que determinam quem trabalha, quando trabalha e quanto receberá.
É uma subordinação que se apresenta como autonomia e que, mais uma vez, essa subordinação possui gênero.
As plataformas digitais não criaram essa desigualdade, mas também não a corrigiram. Em muitos casos, apenas a reorganizaram sob uma nova lógica tecnológica.
Aplicativos que intermediam serviços domésticos ou cuidados pessoais frequentemente apresentam a atividade como uma oportunidade de empreendedorismo individual. No entanto, na prática, a remuneração depende da competição entre trabalhadoras, da avaliação constante dos clientes e da aceitação de condições de trabalho que raramente seriam admitidas em empregos formais.
O cuidado, nesse contexto, torna-se mais uma tarefa sob demanda.
E talvez essa seja a ironia mais profunda da economia digital: enquanto a tecnologia se torna cada vez mais sofisticada, as relações de trabalho que sustentam a vida cotidiana permanecem marcadas por desigualdades antigas.
A modernidade prometeu libertar o trabalho humano. Mas, em muitos casos, apenas deslocou suas formas de precariedade. No fundo, a questão central permanece a mesma de sempre: quem sustenta o funcionamento da sociedade?
Quem garante que crianças sejam educadas, que idosos sejam assistidos, que casas permaneçam habitáveis, que a vida cotidiana continue possível? A resposta quase sempre aponta para o mesmo lugar, apesar da “modernização”: o trabalho invisível das mulheres.
Por isso, talvez a pergunta mais importante da economia digital não seja quantos aplicativos existem ou quantos serviços podem ser automatizados, mas como eles podem se desenvolver sem aprofundar as desigualdades de gênero e a precarização do trabalho?
12 de março de 2026
Pedro H. Guerra
Referências:
PELLEGRINI, C. de M. C.; COSTA, A. P. M. Trabalho, emprego e renda na era da plataformização digital: o caso dos trabalhos de cuidado. Liinc em Revista, [S. l.], v. 18, n. 2, p. e6011, 2022. DOI: 10.18617/liinc.v18i2.6011. Disponível em: https://revista.ibict.br/liinc/article/view/6011.
LANZARA, Arnaldo Provasi. Trabalho e proteção social na era da economia digital. Cadernos CRH, n. 36, 2023.
(Imagem de capa: Freepik Wavebreakmedia_micro)
