Reflexão aponta como abundância de viagens neutraliza vivências e limita mudanças pessoais

O avião pousa, o celular volta a ter sinal e, quase imediatamente, alguém abre a câmera. A paisagem ainda nem foi assimilada, mas já foi registrada. O roteiro está pronto, os pontos turísticos marcados, os restaurantes previamente escolhidos. Em poucos minutos, a viagem começa, ou ao menos aquilo que convencionamos chamar de viagem.

Mas há algo curioso nesse movimento contemporâneo: nunca viajamos tanto e, ao mesmo tempo, raramente nos deslocamos de fato.

O tema de hoje nasce de uma reflexão causada por uma recente viagem (não convencional) e, que ao final, trouxe a certeza de que essa experiência foi, sem sombra de dúvidas um catalisador pessoal, transformadora.

Mas como bem dizia Heráclito de Éfeso “ninguém entra no mesmo rio duas vezes”, isto é, que nós estamos sempre em constante transformação não há dúvidas, mas um pensamento se impõe: se eu sempre me comporto da mesma maneira após qualquer experiência ou fato, será que eu de fato me transformei?

Bom, a natureza do óleo sempre será óleo porque todas as vezes que ele é lançado sobre a água ele não se mistura, ou seja, ele sempre reage da exata mesma maneira que reagiu antes e assim continuará.

Isso me levou a refletir que apesar de pressupormos que a experiência de viajar muito ou passar por muitas situações significativas na vida necessariamente nos transformam, esse pressuposto não é uma realidade. Isto porque para que algo que eu vivo de fato me modifique, eu preciso sair da minha “zona de conforto” mental e viver ou perceber aquilo de uma forma diferente ou nova, nos permitir.

Há quem atravesse oceanos, mas nunca saia de si.
Há quem viva intensamente, ao menos na aparência e, ainda assim, não tenha vivido nada.

A ideia de que viagens e experiências são capazes de nos transformar não é nova. Desde Homero, com a longa jornada de Ulisses na Odisseia, sabemos que deslocar-se no espaço pode ser também deslocar-se internamente. A travessia, no fundo, nunca foi apenas
geográfica; sempre foi existencial.

Ulisses não retorna o mesmo homem que partiu para a guerra de Troia. Não poderia. O tempo, os encontros, os erros e os sofrimentos reconfiguram quem ele é. A viagem o transforma porque ele se permite ser afetado por ela.

Mas o que acontece quando a experiência deixa de nos afetar?

Talvez essa seja a grande questão do nosso tempo, e aqui vamos nós mais uma vez criticar o mundo contemporâneo, mas é necessário. A modernidade nos ofereceu o mundo literalmente. Podemos ir a qualquer lugar, conhecer qualquer cultura, experimentar qualquer gastronomia. No entanto, essa abundância de possibilidades parece ter produzido um efeito paradoxal: a neutralização da experiência.

Viajamos, mas permanecemos os mesmos.

O filósofo Walter Benjamin já alertava, de forma sutil, para o empobrecimento da experiência na vida moderna. Para ele, não bastava viver acontecimentos; era preciso que eles nos atravessassem, que se convertessem em narrativa, em memória, em transformação. Sem isso, o que resta é apenas uma sucessão de eventos vazios.

E talvez seja exatamente isso que vemos hoje.

A viagem deixa de ser um encontro com o desconhecido e passa a ser a confirmação do conhecido. Escolhemos destinos que já vimos em fotografias, seguimos roteiros previamente definidos, buscamos experiências que já foram vividas por outros. O novo é consumido como algo familiar, domesticado, previsível.

Na minha interpretação, a leitura de Friedrich Nietzsche, ao refletir sobre a formação do indivíduo, falava da necessidade de se expor ao incômodo, ao desconhecido, ao que desestabiliza. “Tornar-se quem se é”, na máxima do autor, exige ruptura, exige deslocamento real. Sem isso, permanecemos apenas repetindo versões de nós mesmos.

E talvez seja por isso que tantas experiências falham em nos transformar.

Há quem viaje levando consigo todas as suas certezas. Há quem experimente o mundo apenas na medida em que ele não a contradiga. Há quem viva protegendo-se da própria vida.

E, assim, nada acontece.

A transformação não está no lugar, mas na disposição. Não é o destino ou os acontecimentos da vida que nos modificam, mas a forma como nos colocamos diante deles. Uma mesma viagem pode ser radicalmente diferente para duas pessoas, não pelo que encontram, mas pelo quanto se permitem ser atravessadas pelo encontro.

Viajar, nesse sentido, é um risco, afinal viver é o maior risco de todos. É permitir que o outro, seja ele uma cultura, uma paisagem ou uma pessoa nos transforme. É aceitar que não temos controle sobre tudo, que nem sempre entenderemos o que vemos, que nem sempre reagiremos como gostaríamos. É, sobretudo, abandonar por um instante a ilusão de que somos sempre os mesmos.

O problema é que o mundo contemporâneo nos treinou para o contrário. Aprendemos a manter o controle, a otimizar experiências, a reduzir imprevistos. A vida, nesse modelo, torna-se algo a ser administrado, não vivido. E, quando tudo é administrado, nada realmente nos transforma.

Talvez, no fundo, a pergunta não seja para onde estamos indo, mas como estamos indo. Porque é possível atravessar continentes e permanecer imóvel. É possível viver décadas e nunca ter vivido um único instante de ruptura real. E também é possível o contrário.

É possível, em um único encontro, em uma única conversa, em um único momento de abertura, experimentar uma transformação que nenhuma viagem planejada seria capaz de oferecer.

No fim, a questão não está no mundo, mas na forma como nos relacionamos com ele.

E talvez a maior das travessias não seja aquela que fazemos no espaço, nem a quantidade de experiências que a vida nos impõe, mas o que de nós sobra e o que de nós se transforma após tudo isso.

João Pessoa, 10 de abril de 2026.
Pedro Henrique Guerra.

(Imagem de capa: Freepik)

Referências:
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo: como alguém se torna aquilo que é. Petrópolis/RJ. Vozes,

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